Opções às refeições
Tenho o péssimo hábito, tão prejudicial para o equilíbrio do sistema nervoso, de ver os telejornais durante o almoço, quando estou em casa. Hoje o INE solta os últimos dados sobre a felicidade em que todos vivemos durante o mês transacto. Confiro mentalmente com uma notícia de momentos antes: o preço da fruta subiu 25% desde o princípio do ano. Que importa isso, garante o zeloso departamento responsável (?) pelas estatísticas que nos impingem: os serviços recreativos e desportivos baixaram 10,9%, só este mês, pelo que a inflação homóloga se quedou nuns míseros 3,4%! Mas afinal não dizem que a fruta pode fazer dispepsias graves? Será por isso que me doi o estômago? Ou será porque estes telejornais fazem azia? Ou não será que devia ter ido recrear-me e fazer desporto para as magníficas instalações que tenho ao dispôr no nóvel Estádio do Coelho/Vitorino, perdão do Algarve? Com efeito talvez assim beneficiasse o meu combalido aspecto exterior, preparando-me para a melhoria, lenta mas segura, que o primeiro entre os governantes que nos guiam apareceu logo de seguida no pequeno écran a anunciar. Afinal o problema desta coisa da inflação está nas opções. Faço mentalmente um voto. Doravante acabei com a fruta ao almoço. E se for preciso, para dar razão ao Sr. Primeiro Ministro, que tanto luta para a ter, também suprimo o próprio almoço. Se dizem que o cavalo do inglês tentou muito mais que isso, quase com sucesso, porque carga d'água é que eu hei-de ser menos que um cavalo? O mesmo digo dos governantes, que tanto fazem por nós (eles) e tão pouco recompensados são.
Festas Felizes com muita actividade recreativo-desportiva!
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Vitorino Magalhães Godinho
Desde os meus já velhos tempos do Liceu Passos Manuel, alí à beira do Convento de Jesus, numa das colinas da mais velha ainda Lisboa, que me lembro de ouvir citar Vitorino Magalhães Godinho como exemplo de probidade como professor, intelectual e historiador. De novo isto vejo confirmado numa entrevista do Público de hoje. Pensa, e di-lo com frontalidade, que a humanidade perdeu os restos duma grandeza que ainda ostentou no século passado. Que nas piores convulsões ainda havia quem vivesse com consciência dos ideais pelos quais lutava. Que é como quem diz havia humanidade e humanistas. Quando tempo durará aquela sem estes, pergunto-me eu?
Constata, aquilo que para poucos é já óbvio, que o poder económico deixou de depender simbióticamente do operariado, que este se torna cada vez mais dispensável e o sindicalismo cada vez mais um anacronismo. O capitalismo na sua forma original terá já ruido, substituido por uma rede de organizações de cariz mafioso, que agora governam o mundo através de governos e estruturas estatais que nada representam verdadeiramente, pelo menos no sentido da pureza democrática que os deveria ter criado, ou eleito. A Sociedade de Espectáculo, formulada por Guy Debord, em plenitude de acção.
Não há diferenças partidárias, diz com conviccão e como eu o compreendo... Cito" os partidos estão completamente desfasados da realidade " embrenhados em " lutas mesquinhas " Este homem, cuja independência em relação ao pre-25 Abril só de total má fé se poderá pôr em dúvida, admite que os direitos e liberdades dos cidadãos não estão mais garantidos, e em certos casos menos, que nos tempos da temível polícia política do Salazarismo... Considera que o homem de hoje, em plena Era da Comunicação, quanto mais comunica mais isolado está.
Velho do Restelo?? Ou voz de consciência cada vez mais inconsciente em cabeças que deixaram de pensar?
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